
Ao deslizar os dedos pelas teclas sinto-te como um piano que desliza em sons de palavras... já não te toco há tanto tempo, perdi-me algures na melancolia do vazio e no reboliço intenso por onde tenho navegado.
Ando num rodopio intenso que me ultrapassa e esmaga, como se as horas e os dias acontecessem todos ao mesmo tempo, roubando-me tempo para navegar em devaneios ou perder-me a olhar o Pico. Não tenho tempo, nem para sonhos reais ou para cavaleiros
andantes nas minhas nuvens de cetim... esgotaram-me o tempo, até aquele que dedico a este espaço que fala apenas do que me vai na alma... esgotaram-me, arrancaram de mim ilusões e realidades sentidas, destruiram-me o pensamento e o sonho. Vivo dias reais de confusão e ruídos em que os sentidos estão todos voltados para um centro que me escraviza.
Penso no sentido da vida, ou em vidas sem sentido que me vão massacrando, mutilando, em tons de cinza e fumaça...
Quero voltar ao azul colorido dos sonhos e das
magias, das palavras da alma que rodopiam em ondas quentes e doces, neste mar eterno que me envolve... quero olhar a minha montanha com os olhos do coração em noites de lua cheia embalada pelo cântico das
cagarras... quero abstrair-me do ruído das obras e do reboliço do Pico em mês de Agosto e, tranquilamente deixar-me navegar nesta
trilogia única: montanha, mar e cânticos...
Estou cansada, necessito parar, dar um mergulho e perder-me ao sabor das ondas... deixar os dedos tocarem as melodias das tuas palavras, não são as minhas, são as da alma que me segredam ao coração... Não sei se voltei, sabes? Amanhã um novo dia nasce e o rodopio continua, e eu? Bem eu estarei envolvida em ruídos cruéis que como punhais se enterram em mim...
Olho-te de novo, minha montanha e embarco no sonho de amanhã te poder contemplar em azuis de marfim com sonatas de
cagarra...