Mais um ano!Essencialmente o amor que temos aos Açores e, de modo particular ao Pico, serviu para nos reunirmos num almoço onde a boa disposição reinou e a troca de opiniões fluiu naturalmente.
Valeu a pena!
Este é o meu espaço de pensamentos, emoções e sensações...







Começou a correria, a loucura desenfreada à procura da prenda certa para cada pessoa. Cortei com isso, embora não de forma total (para o ano certamente serei mais radical).
Sou uma amante do Verão, do verde e azul incomparáveis, do Sol a abençoar o Pico... chega o Outono e fico mais triste, o verde dá asas ao castanho, o azul transforma-se em cinzento. Chego a casa de noite e até o último cigarro fumado no jardim, tem o negro por companhia. Mas a moeda tem sempre duas faces e ao olhar as folhas que caiem, as flores que perderam a cor, as cagarras que já não cantam, ouço o silêncio das folhas e petálas soltando-se das árvores, o remor do mar a bater nas rochas e sinto-me em casa. Olho as folhas a cair, as flores que só nascem no Outono e deleito o olhar na magia do sentir..
Ando em maré de silêncios... fujo das palavras e de grandes alaridos sonoros... Hoje, no entanto, lembrei-me de uma palavra que se adapta muito bem ao sentir do povo português: saudade , talvez porque sinta (sentimento) saudades, ou a falta de, ou, de alguém... Sinto saudades da minha infância, de correr livremente pelas ruas da terra do meu Pai, sem medos, sem preocupações, sem pensar nada no dia de amanhã... Sinto-as da minha adolescência marcada pela irreverência, pelas dúvidas, pelos afectos, pelos amores e desamores... Do cheiro que Lisboa tinha, das castanhas assadas, dos pregões da Ribeira, do cacau quente... Sinto saudades dos meus pais e irmã, da nossa enorme cumplicidade, de me limparem as lágrimas sem me perguntar o porquê delas, de compartilhar uma gargalhada pela "coisa mais banal do mundo" e não ser apelidada de tolinha... e os abraços, daqueles fortes, que levavam consigo todos os medos e angústias e eram um conforto enorme para a alma... de andar descalça e "chapinhar" nas poças que a chuva deixava... de namorar à beira-mar, dos silêncios trocados a dois, dos meus filhotes pequeninos e só meus, tão inteiramente meus...
Não me digam nada! Deixem-me divagar ao acaso do vento em botes de sonho, em noites de luar intenso... Não usem palavras, sabem-me a vazio, são mascaradas de sons adocicados que me soam ocas e sem sentido...
Fazes hoje 70 anos de uma vida vivida mais em função dos outros do que de ti... És uma excelente Mãe e a nossa maior Amiga. A cada passo que damos estás tu para nos apoiar, quando as lágrimas caiem são os teus braços que as limpam, quando os sorrisos brotam são os teus olhos que brilham de emoção... Conheces a nossa alma como mais ninguém, mesmo à distância consegues intuir o que sentimos.
No céu as cagarras esvoaçavam, enquanto a lua cheia beijava o céu... ao longe o som da guitarra entoando "Je T'aime... Moi Non Plus" de Jane Birkin & Serge Gainsbourg... nós de mãos dadas olhávamos o infinito, perdidos no sentido dos cheiros e da majestosa realidade que nos ultrapassava... Não falávamos, o silêncio dizia mil palavras e as nossas mãos procuravam unidas uma infinidade de significados... Abraçamo-nos... quietinhos com medo de acordar a magia que o tempo real nos tinha oferecido. Ficámos estagnados a olhar o dia que terminava dando lugar á mágica noite que se adivinhava... o mar cantava suavemente enquanto desfalecia nas pedras... a lua cheia adormecia, por fim, nos braços do mar... as árvores murmuravam palavras doces entre si... e nós?... "nós" voávamos nas asas de uma cagarra ao som de uma velha canção... ao encontro do Pico que nos acolhia no seu leito...




Já aqui disse que lido muito mal com a morte... com o desaparecimento de pessoas que Amo... Perdi uma AMIGA, alguém com quem vivi momentos únicos, que não se repetirão com mais ninguém porque cada ser, é um ser único.
Ao deslizar os dedos pelas teclas sinto-te como um piano que desliza em sons de palavras... já não te toco há tanto tempo, perdi-me algures na melancolia do vazio e no reboliço intenso por onde tenho navegado.
Quando as flores dão lugar aos maracujás e invadem de verde o meu pequeno jardim... quando o sol aquece o dia e, a noite, acorda de mansinho coberta de estrelas... quando o mar se transforma de cinzento em azul e verde... quando a minha montanha se descobre perante os olhares extasiados... quando a minha alma voa nas asas de uma cagarra... quando solto o beijo e ele roça os teus lábios ou face... quando abraço o vento que me toca o rosto levemente... quando acordo com um sorriso no olhar... quando estendo a mão e sinto uma mão amiga que espera a minha... quando as lágrimas caiem e as deixo soltas a escorrerem pelo rosto... quando o abraço apertado saí da minha alma ao encontro de outra... quando estou presente mesmo sem me dizerem para estar ali... quando ouço de mansinho a chuva tocada ao som de violinos inventados... quando sinto que estou mais além e ao mesmo tempo possuída pelo meu Pico... quando encontro a paz, depois da tormenta... quando sou eu, mesmo eu, sem me preocupar com o que pensam... quando me entrego por completo, deixo a paz invadir-me e de olhar perdido na montanha pergunto-me até quando??? quando? enquanto as nuvens forem de cetim e tiverem sabor a algodão doce...


No dia de Corpo por Deus é habitual um pequeno grupo de pessoas unir-se para fazerem os tapetes de flores na chamada Rua Direita da Vila. Cada vez somos menos, de ano para ano as pessoas vão desaparecendo e os que restam são constituídos por pessoas, já com alguma idade. Poucas são as pessoas das outras ruas da Vila que se disponibilizam para ajudar neste trabalho. Como se a Vila não fosse uma só.